terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Contradança


© Márcia Sanchez Luz




(Img: Dançarina, de Zhaoming Wu)


Sou feito a bailarina que descansa,
entregue após a valsa que entristece
e que a faz, sorrateira em esperanças,
refrear o desejo que emudece.

Tão pouco sei de mim e de você!
(Do riso pulsa a veia latejante)
O espelho em que me vejo é tão clichê!
Reflete até o espaço itinerante!

Assim, quando acordar da contradança,
aguardarei o olhar que me envaidece
e que me faz corar e me enternece.

E entardecendo a dor que não fenece
meus olhos, de cansaço, vão se unir.
À espera, movimento não padece.


(Do livro "Porões Duendes")

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Canção noturna


© Márcia Sanchez Luz



(Img: Moça dormindo, de João Werner)


Não quero mais que digas ter amor
por mim, quando bem sei que só me queres
para enfeitar teu corpo com prazeres
que ao fim me causam sofrimento e dor.

Não quero estar contigo e meu frescor
te dar inteiro. Eu sinto que me feres
porque desejas mais de mil mulheres
por garantia, para o teu louvor.

Esquece o que vivemos, eu te peço!
Foi tudo uma ilusão desenfreada
que agora finda e a paz é o meu ingresso

à vida que me espera mais ousada.
Isto é o que pagas pelo desapreço,
por me fazer chorar de madrugada.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

(Des) União


© Márcia Sanchez Luz



(img: Womenstudio - Christian Coigny)



Como é que eu posso amar-te assim, meu bem,
se quando estou contigo não te quero
e quando tu te ausentas eu te espero
e sonho que no amor não há desdém?

Chegas faminto, imploras, me diz – “Vem,
preciso de teu corpo” – em desespero.
Sei bem que é grande a fome e que és sincero,
mas isto é pouco. Quero amor também!

Sei que é difícil constatar o fato
de que a distância nos faz mais amantes
do que é possível quando estamos juntos.

Não sei como lidar com o que constato!
Se estamos próximos, mas tão distantes,
por que continuamos, me pergunto.

domingo, 2 de outubro de 2011

Solidão dos quereres

© Márcia Sanchez Luz


(Img: Lucidez, de Gustavo Saba)


A dor que te sufoca é também minha,
assim como este amor que não tem fim.
negar a mágoa pode ser ruim
pois que disfarça o adeus que se avizinha

e assusta o corpo quando estou sozinha.
Constato que o querer é sempre assim
e canso-me de ter somente em mim
paixão que por si só me desalinha.

Fechar-me não seria a solução
(seria tão somente paliativo)
para o que sinto e que me faz morrer

a cada instante deste meu viver.
Mas eu preciso achar algum alívio
porque além da razão, sou emoção...
 




sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Flor Anciã - soneto de Márcia Sanchez Luz

© Márcia Sanchez Luz


(Img: Eros e Psique - Antônio Canova)





















Espero-te em meu barco de manhã,
depois que a brisa e o canto se encontrarem
e te contarem sobre a flor anciã,
que fez meus olhos toda a dor secarem.

Espero-te em silêncio, no amanhã,
depois que a sombra fria e o ardor findarem.
E que tu venhas me encontrar, Titã,
mesmo se sol e lua te ofuscarem.

Então eu poderei de amor falar!
E nem que seja só por um instante,
bastar-me-á que saibas me escutar.

E vais me compreender e me beijar!
Da flor anciã guardei esta semente,
para que sintas Eros te embalar.

*Do livro "Porões Duendes"

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Spleen


© Márcia Sanchez Luz

(Imagem: Elegance, de Itzchak Tarkay)






 















Por que vivo com saudades
de quem jamais encontrei?
Será que existe uma lei
que impeça a festividade

no encontro de afinidades?
A vida é cheia, bem sei,
de tristezas. Já vaguei
atrás da felicidade

e nunca pude encontrar
no ar, na terra ou no mar,
um sentir tão fragoroso

que, mais que o amor, é gostoso
(pois brejeiro e misterioso)
como a brisa a me afagar.

sábado, 2 de julho de 2011

Turbilhão no céu - Soneto de Márcia Sanchez Luz


Imagem: Young World, Inga Nielsen


O céu estava assim, sem desencontros:
pariu o sol e a lua em pleno dia,
mostrou a criação que contagia
e não deixou de achar que estava pronto

para fazer da tarde, mais que encontro,
um turbilhão de cores e magia,
como se fora aberta galeria
a quem quisesse olhar de longo a longo

a vida escrita pela natureza.
Foi como o despertar de uma esperança
que morta se mostrava. Era a beleza

expondo seu vigor, toda a pujança
(tão própria de quem luta e sempre brilha)
pois que é imortal guerreira e não se cansa!


© Márcia Sanchez Luz



sábado, 18 de junho de 2011

O SOL DA MEIA-NOITE...

Imagem do Google











Com você,
cada manhã
é um novo susto.

© Márcia Sanchez Luz

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Cantiga para aliviar a dor


Img: Espanha, Salvador Dalí






















Teu sofrimento dói em mim também,
mas teu sorriso me faz rir da vida,
ter esperança que há de haver saída
para a tristeza que nos faz reféns

de nossos pares que por vezes nem
nos olham com os olhos de acolhida
que tanto precisamos. É dorida
a falta do carinho de outro alguém!

Cuido de ti, prometo que não vais
sofrer na escuridão, chorar de dor
nem quando a morte der os seus sinais.

De solidão, eu nunca vou deixar
sentires frio, sob o cobertor:
sempre estarei aqui pra te afagar.


© Márcia Sanchez Luz

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Partitura


WomenStudio_104 - Christian Coigny






















Sem mim, amor, eu sei que sentes frio.
Quando estou perto, abraço-te em meu peito
e deixo que me afagues do teu jeito
até que nos tornemos um só rio

imenso, cor violeta, luz, delírio!
Podemos contemplar de nosso leito
o brilho que irradia o som perfeito
da melodia escrita em desvario.

Por horas em silêncio nós ficamos
a recordar aquele breve instante
de amor intenso, cavalgar pulsante

de corpos que se perdem da razão.
Agora sei que é o fim da escuridão
que tanto nos tomou de desenganos.


© Márcia Sanchez Luz

segunda-feira, 14 de março de 2011

Poeta - soneto de Márcia Sanchez Luz



Imagem: Márcia Sanchez Luz



Sou da palavra a chama que descreve
e alisa e abraça as causas mais diversas.
Se for de outrem a dor que não prescreve,
faço-lhe minha amante mesmo em trevas.

Se acaso o sopro me lançar à verve
de uma cantiga envolta em densas névoas,
deixo a cadência se verter bem breve
e transformar em flor dores primevas.

Mas se no equívoco da fantasia
eu acordar de um sonho desvalido,
não vou chorar – conheço a ventania!

Sei que adiante a luz que outrora havia
vai ressurgir até no amor premido
por uma febre ardendo em demasia.


© Márcia Sanchez Luz

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Acalanto


The Bridge - Inga Nielsen


Eu amo como quem deita no chão
e fica olhando estrelas no relento.
A calma chega em forma de acalento
e assim me entrego inteira a uma ilusão

de que aguardar-te não vai ser em vão.
Bem sei que tu me queres e, sedento,
nem vais me perguntar se espero o vento
trazer-me a paz em forma de canção.

Por vezes este amor me varre os dias
como uma tempestade em pleno estio
a me afogar em medos e fobias.

Por outras ele acorda meus instintos,
me faz valente, sem temer o frio
das noites invernais de afetos findos.


© Márcia Sanchez Luz