segunda-feira, 28 de maio de 2012

Aqui onde moro...


© Márcia Sanchez Luz


(Img: Márcia Sanchez Luz)



















Aqui onde moro
quero-queros logo gritam
se alguém se aproxima.
A coruja à tarde observa
pra de noite começar.

Tartarugas no verão
primavera por que não?
Correm lépidas pra chuva
atrás de água pra beber
cantinho pra namorar.

Beija-flores nas grevilhas
russélias brancas, vermelhas
aguardam carinhos e beijos
enquanto ixoras sorriem
esperando sua vez.

Jasmins de todas as cores
com suas formas variadas
exalando olores diversos
perfumam o ar, dançam ao vento
trazem paz, doces alentos.

Jerivás e guarirobas
reais e imperiais
arecas e washingtônias
palmeiras aqui não faltam
pra brindar as helicônias.

Aqui onde moro me integro
entrego-me às plantas e aos bichos.
Mensageiros do vento tilintam
alertam pra chuva que vem
e pra que vai embora também.

Os bichos que aqui trafegam
não precisam de controle
seja em terra ou no ar...
Não se agridem como os homens
vivem em total sintonia.




*Do Livro "No Verde dos Teus Olhos" - Editora Protexto, PR - 2007

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Delitos de amar

© Márcia Sanchez Luz

(Img: Don Juan, The Nude - Salvador Dalí)

Se dizes que me amas, acredito,
mas em seguida sinto que este amor
é idêntico na forma ao anterior:
idealizado, mais parece um mito.

Eu vejo que no amor tu és perito
assim como o poeta é fingidor:
inventas e acreditas num fervor
e dele fazes teu maior delito.

Não sei se vale a pena prosseguir
te amando como se verdade fosse
o que sentes por mim. Melhor partir,

fingir que os dois fingimos sentimentos,
que por palavras nós nos abraçamos
como se amantes fôssemos, invento.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Segredos de beija-flor

© Márcia Sanchez Luz

Para Aracéli Martins, em seu aniversário


(Img: Márcia Sanchez Luz)


















Um beija-flor pousou em meus cabelos
e me contou segredos de outras terras.
Falou dos mares, rios e das serras,
dos seres mágicos, frugais modelos

do que é ser puro, do que é ter desvelo
pelo universo, pela biosfera.
Em nosso orbe a vida já se ulcera
e dele conhecemos o novelo,

o trágico final que se apresenta
e delineia a era que virá.
A natureza avisa mas se isenta

se não olharmos todos seus sinais!
Um beija-flor pousou em meus cabelos
e me cobriu de beijos musicais...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Contradança


© Márcia Sanchez Luz




(Img: Dançarina, de Zhaoming Wu)


Sou feito a bailarina que descansa,
entregue após a valsa que entristece
e que a faz, sorrateira em esperanças,
refrear o desejo que emudece.

Tão pouco sei de mim e de você!
(Do riso pulsa a veia latejante)
O espelho em que me vejo é tão clichê!
Reflete até o espaço itinerante!

Assim, quando acordar da contradança,
aguardarei o olhar que me envaidece
e que me faz corar e me enternece.

E entardecendo a dor que não fenece
meus olhos, de cansaço, vão se unir.
À espera, movimento não padece.


(Do livro "Porões Duendes")

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Canção noturna


© Márcia Sanchez Luz



(Img: Moça dormindo, de João Werner)


Não quero mais que digas ter amor
por mim, quando bem sei que só me queres
para enfeitar teu corpo com prazeres
que ao fim me causam sofrimento e dor.

Não quero estar contigo e meu frescor
te dar inteiro. Eu sinto que me feres
porque desejas mais de mil mulheres
por garantia, para o teu louvor.

Esquece o que vivemos, eu te peço!
Foi tudo uma ilusão desenfreada
que agora finda e a paz é o meu ingresso

à vida que me espera mais ousada.
Isto é o que pagas pelo desapreço,
por me fazer chorar de madrugada.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

(Des) União


© Márcia Sanchez Luz



(img: Womenstudio - Christian Coigny)



Como é que eu posso amar-te assim, meu bem,
se quando estou contigo não te quero
e quando tu te ausentas eu te espero
e sonho que no amor não há desdém?

Chegas faminto, imploras, me diz – “Vem,
preciso de teu corpo” – em desespero.
Sei bem que é grande a fome e que és sincero,
mas isto é pouco. Quero amor também!

Sei que é difícil constatar o fato
de que a distância nos faz mais amantes
do que é possível quando estamos juntos.

Não sei como lidar com o que constato!
Se estamos próximos, mas tão distantes,
por que continuamos, me pergunto.

domingo, 2 de outubro de 2011

Solidão dos quereres

© Márcia Sanchez Luz


(Img: Lucidez, de Gustavo Saba)


A dor que te sufoca é também minha,
assim como este amor que não tem fim.
negar a mágoa pode ser ruim
pois que disfarça o adeus que se avizinha

e assusta o corpo quando estou sozinha.
Constato que o querer é sempre assim
e canso-me de ter somente em mim
paixão que por si só me desalinha.

Fechar-me não seria a solução
(seria tão somente paliativo)
para o que sinto e que me faz morrer

a cada instante deste meu viver.
Mas eu preciso achar algum alívio
porque além da razão, sou emoção...
 




sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Flor Anciã - soneto de Márcia Sanchez Luz

© Márcia Sanchez Luz


(Img: Eros e Psique - Antônio Canova)





















Espero-te em meu barco de manhã,
depois que a brisa e o canto se encontrarem
e te contarem sobre a flor anciã,
que fez meus olhos toda a dor secarem.

Espero-te em silêncio, no amanhã,
depois que a sombra fria e o ardor findarem.
E que tu venhas me encontrar, Titã,
mesmo se sol e lua te ofuscarem.

Então eu poderei de amor falar!
E nem que seja só por um instante,
bastar-me-á que saibas me escutar.

E vais me compreender e me beijar!
Da flor anciã guardei esta semente,
para que sintas Eros te embalar.

*Do livro "Porões Duendes"

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Spleen


© Márcia Sanchez Luz

(Imagem: Elegance, de Itzchak Tarkay)






 















Por que vivo com saudades
de quem jamais encontrei?
Será que existe uma lei
que impeça a festividade

no encontro de afinidades?
A vida é cheia, bem sei,
de tristezas. Já vaguei
atrás da felicidade

e nunca pude encontrar
no ar, na terra ou no mar,
um sentir tão fragoroso

que, mais que o amor, é gostoso
(pois brejeiro e misterioso)
como a brisa a me afagar.

sábado, 2 de julho de 2011

Turbilhão no céu - Soneto de Márcia Sanchez Luz


Imagem: Young World, Inga Nielsen


O céu estava assim, sem desencontros:
pariu o sol e a lua em pleno dia,
mostrou a criação que contagia
e não deixou de achar que estava pronto

para fazer da tarde, mais que encontro,
um turbilhão de cores e magia,
como se fora aberta galeria
a quem quisesse olhar de longo a longo

a vida escrita pela natureza.
Foi como o despertar de uma esperança
que morta se mostrava. Era a beleza

expondo seu vigor, toda a pujança
(tão própria de quem luta e sempre brilha)
pois que é imortal guerreira e não se cansa!


© Márcia Sanchez Luz



sábado, 18 de junho de 2011

O SOL DA MEIA-NOITE...

Imagem do Google











Com você,
cada manhã
é um novo susto.

© Márcia Sanchez Luz

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Cantiga para aliviar a dor


Img: Espanha, Salvador Dalí






















Teu sofrimento dói em mim também,
mas teu sorriso me faz rir da vida,
ter esperança que há de haver saída
para a tristeza que nos faz reféns

de nossos pares que por vezes nem
nos olham com os olhos de acolhida
que tanto precisamos. É dorida
a falta do carinho de outro alguém!

Cuido de ti, prometo que não vais
sofrer na escuridão, chorar de dor
nem quando a morte der os seus sinais.

De solidão, eu nunca vou deixar
sentires frio, sob o cobertor:
sempre estarei aqui pra te afagar.


© Márcia Sanchez Luz